Em uma cidade onde os galos já não cantam mais ao amanhecer, mas sim os smartphones despertam com notificações de escândalos políticos, vive Verônica Vingativa, uma vereadora de espírito aguerrido e olhar sempre atento às oportunidades... para os seus eleitores, é claro.
"Contra documentos, não existem argumentos", especialmente se os documentos apareceram em publicações particulares entre a Vereadora e o Prefeito e são solicitações de cargos na administração pública.
Verônica, antes uma aliada fiel do prefeito, transformou-se na espinha no paletó da administração municipal. Tudo começou quando suas humildes solicitações - leia-se uma lista tão longa quanto o rol de promessas não cumpridas em campanha - foram solenemente ignoradas pelo prefeito.
"Como assim não tem espaço para o primo do meu eleitor na secretaria de obras? E a vaga para a manicure da minha sobrinha na saúde?", indagava Verônica, enquanto revirava os olhos por não ver seus pedidos atendidos.
Desprezada e movida por uma sede de justiça (ou seria vingança?), Verônica adotou uma nova postura. Passou a frequentar todas as sessões da câmara com uma lupa e um megafone. A lupa, para fiscalizar com precisão os atos do prefeito, e o megafone, bem, para garantir que todos os cidadãos ficassem a par de suas descobertas, especialmente aquelas que o prefeito preferiria manter sob o tapete da prefeitura.
Se antes o prefeito via em Verônica uma aliada, agora via uma inimiga de capa e espada, pronta para duelar no campo de batalha da administração pública. Ela, por sua vez, transformou-se na heroína dos desassistidos, dos esquecidos e, claro, dos seus eleitores desempregados, que viam nela a última esperança de conseguir um cargo - qualquer cargo - na prefeitura.
As sessões da câmara municipal, antes eventos tediosos e previsíveis, tornaram-se espetáculos imperdíveis. Verônica, armada com seus documentos, revelações bombásticas e uma dose saudável de sarcasmo, não deixava pedra sobre pedra. O prefeito, por outro lado, já não sabia mais se deveria investir em políticas públicas ou em um bom par de tampões de ouvido.
Assim, Verônica Vingativa, com sua cruzada solitária contra a administração pública, tornou-se uma lenda urbana.